quarta-feira, 17 de julho de 2019

Tratado de chicletes

Posto
chicletes Gorila
(passo a  publicidade),
mas, antes, extraio-lhes o açúcar
todo.
São poemas sem alma.
Hoje é tudo adoçantes,
ou zero.
Ora, ora!
Modas!
Como é que vou
tirar as chicletes
daqui?
Só raspando.

São efémeros os poemas,
como as chicletes.
Mastiga e deita fora.
Há para todos os gostos.
Alguns têm recheio.
Mas não são Gorila.
Que eu saiba.
Enquanto dura o sabor,
são boas.
(As chicletes)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Adeus

Os meus olhos partiram
na direção do comboio
do martírio.
Partiram e não voltaram
mais.
Adeus às paisagens.
Adeus à luz.
Adeus às gentes.
A menina que eu fora não ficou.
A adulta que fui também não permaneceu.
Esta não deixou saudades.
Foi como um prato viscoso
e nojento de qualquer coisa de
águas estagnadas e mal cheirosas.
Eu era uma doença.
Mas veio o escuro,
o silêncio,
a solidão.
Adeus.
Sem nostalgia
- a nostalgia é um luxo -,
só com dor.
Até quando?

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Irresponsabilidade

Os deuses movem-se no espaço, contemplando alegremente as misérias humanas. Cospem aguaceiros e sujam as mãos a comer sem quaisquer maneiras, mãos que sacodem, projetando as imundícies - os asteróides - no espaço sideral. Emitem ventosidades com estrépito pelo ânus - trovões e raios - e por meio daquelas também acendem as estrelas. Já os planetas, a lua e outras minudências do espaço não se sabe de onde virão... Talvez dos buracos negros, que são as suas bocas horrendas...
Nós, hipnotizados e alienados, não conseguimos vislumbrar esses deuses.
E eu sinto-me uma pata choca não sei porquê.

E "prontos": escarrei um texto!

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Namoro

É doce
e quente
essa vereda, no final.
Entretanto, é
um caminho difícil;
uma luta
que se trava entre
a noite e o dia,
o sol e a lua,
a terra e o mar.
Parece inglória.
Mas esclarece,
no fundo.
É intergaláctica.
É doce
e quente, no final.
Mas, antes de ser fruto,
é fogo a consumir;
forno de pão a funcionar.
Amor,
onde moras?

sábado, 27 de abril de 2019

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Metas

A caminho das planícies,
navego por declives.
Entretanto, em ti,
toda a hora se faz presença,
como para admirar
os sonhos rosa que espreitam
à esquina do teu dormir sossegado.
E tudo ressurge
renascido,
mesmo que eu
ainda não tenha chegado,
porque o rio
é já ali.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Departamento

Fecha-se a
noite em redor
da canção em que
assobiava e já não é.
Ficam os arames
farpados do nada,
que magoa mais
que o tudo...
durante horas.
Rejuvenesce
a cor, quando os raios
penetram pelos
buracos dos
caixotes.
Mas, cá dentro,
ainda é escuro.

terça-feira, 26 de março de 2019

Saudade - In memoriam

A ausência faz-se palavra
estranhamente, ou não,
porque recordo os pássaros
que vieram beber na tua mão,
os caminhos de pedras,
então tornados rios,
em sílabas das cores
do arco-íris.
E, nesse instante, contemplo.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Ave

É um sorriso
de oceanos,
de montanhas,
de céu com sol abrasador.
Ao florescer,
tudo em redor fica um jardim.
É, no momento,
um voo de pássaro,
ou à vela;
o próprio planador,
ou qualquer máquina voadora,
e, ao mesmo tempo,
aeroporto ou heliporto;
o poiso.
Uma manhã,
uma janela aberta sobre um prado.
É Homem- Menino
sempre a renascer:
estrela-do-mar.
E, então,
querem ser
a sua ave.

sexta-feira, 1 de março de 2019